segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Pais e filhos




Eu já falei em postagens anteriores que meu conhecimento de Cora Coralina se deu através de meu pai, que assim como Cora também teve uma infância simples e cheia de lutas. Ele aprendeu a desviar com muito esforço dos obstáculos que a vida lhe reservou para dar a mim e a meus irmãos a educação e as chances que seus pais não puderam lhe dar. Percorrendo todo um Brasil com sonhos e planos na bagagem para seus três filhos. Dessa forma esse blog serve também como uma homenagem, e assim publico esta singela postagem feita por ele.


Conversando com Cora

Eu sou admirador de Cora e acredito que, em momento de angustia ela desabafa na “melodia de seu cântico” quando, por exemplo, em “Minha infância” diz: “Melhor fora não ter nascido”. Mas graças a Deus logo adiante reconhece sua missão divina para o uso das palavras quando assevera: “Quem sentirá a Vida destas páginas...Gerações que hão de vir de gerações que vão nascer”.

Cora! Em seu tempo os livros de geografia ensinavam que o maior rio do mundo, na época em volume d’agua, nascia no grande lago Titicaca, mas o tempo, o senhor da verdade, corrigiu o engano. Agora afirmam os estudiosos que, o Rio Amazonas, nasce como você nasceu: frágil, mas na grande altura de 5.597 metros da montanha Mismi na região peruana de Arequipa na Cordilheira dos Andes.

Não sabia você, Cora, que para viver por tanto tempo entre os seres inteligentes deste planeta Terra, seria necessário nascer frágil, pouco desenvolvida, desprezada e desvalorizada, fruto de um velho desembargador que não conheceu na Terra a força de seus versos, mas certamente na outra vida ti encontrou e externou toda admiração e carinho que tem por você, e quem sabe até esclareceu as razões porque tudo aconteceu assim.

Cora Coralina! Era necessário ser frágil, ter pouco valor no início de uma longa vida, para depois as novas gerações conhecerem o seu trabalho, a sua importância no mundo das letras e sentir que, obstáculo algum conterá a força de um rio de sabedoria, tão forte quanto o Rio Amazonas, pois “não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos”.

Para meu filho Andreisson, com a benção de Deus, uma singela contribuição com todo o meu respeito e admiração pela iniciativa deste trabalho.

Moisés Almeida.





Meu pai

In memorian

Meu pai se foi com sua toga de juiz.

Nem sei quem lha vestiu.

Eu era tão pequena,

mal nascida.


Ninguém me predizia – vida.

Nada lhe dei nas mãos.

Nem um beijo,

uma oração, um triste ai.

Eu era tão pequena!...

E fiquei sempre pequenina na grande

falta que me fez meu pai.

Cora Coralina





Manuscrito da poesia "Meu Pai".


sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Que possam te salvar, deter a tua queda...

-----------------Cadernos, jornais, Bíblia, Grande Sertões Veredas...
--=====-(Documentos que foram salvos da última enchente do Rio Vermelho)

---------Cora Coralina não canta apenas dela mesma. Seus versos mostram sua compaixão com tudo aquilo que é torto ou parece ser, nessa vida. Em 'Menor abandonado' ela demostra sua compaixão com todos os que não possuem voz ou vez:

(...) Pudesse eu te ajudar, criança estigma.
Defender tua causa, cortar tua raiz
chagada...
És o lema sombrio de uma bandeira
que levanto. (...)

---------As palavras 'Defender tua causa', usada pela poetisa, revelam bem a sua preocupação com várias injustiças socias. Mas, uma das quais ela mais levantou a bandeira foi a questão da educação, tanto acadêmica como moral.
---------Suas inquietações com essas pedras sociais, 'E tu - Menor Abandonado, és a pedra, o entulho e o aterro desse fosso.', podem ser observados em algumas partes de seus vários poemas, ora denunciando ora fazendo apelos aos homens e autoridades:

Antiguidades

(...) Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande de casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica. (...)

A Escola da Mestra Silvina

(...) Digo mal - sempre havia

distribuídos
alguns bolos de palmatória... (...)
...
(...) Banco dos meninos
Banco das meninas.
Tudo muito sério.
Não se brincava.
Muito respeito.
Leitura alta.
Soletrava-se.
Cobria-se o debuxo.
Dava-se a lição.
Tinha dia certo de argumento
com a palmatória pedagógica
em cena.
Cantava-se em coro a velha tabuada.(...)

O Prato Azul-Pombinho


(...) E o castigo foi comuntado
para outro, bem lembrado, que melhor servisse a todos
de escarmento e de lição:
trazer no pescoço por tempo inderteminado,
amarrado de um cordão,
um caco do prato quebrado.

O dito, melhor feito.
Logo se torceu no fuso
um cordão de novelaõ.
Encerrado foi. Amarrou-se a ele um caco, de bom jeito,
em forma de mei-lua.
E a modo de colar, foi posto em seu lugar,
isto é, no meu pescoço.
Ainda mais
agravada a penalidade:
proibição de chegar na porta da rua.
Era assim, antigamente. (...)


- Nesse poema, Cora denuncia a forma como era castigo uma criança, amarrando um cordão com cacos de porcelana no pescoço da dela.

Becos de Goiás


(...)E aquele menino, lenheiro ele, salvo seja.
Sem infância, sem idade.
Franzinho, maltrapilho,
pequeno para ser homem,
forte para ser criança.
Ser indefeso, indefinido, que só se vê na minha cidade. (...)

O Beco da Escola


(...) Mestra Lili... o seu perfil
Muidinha, magrinha.
Boa sobretudo. Força moral.
Energia concentrada. Espírito forte.
O hábito de ensinar, ralhar, levantar a palmatória,
afeicoara-lhe o conjunto
- enérgico, varonil. (...)


Minh Infância


(...) A rua... a rua!...
(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
- proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
- emparedavam.(...)
...
(...) Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.

Contenção... motivação... Comportamento estreito,
limitado, estreitando exuberâncias,
pisando sesibilidades. (...)

(...) Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes imposta, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar...
E a certeza de estar sempre errando...

Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre...
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.

Menor Abandonado

(...) Pudesse eu te ajudar, criança-estigma.
Defender tua causa, cortar tua raiz
chagada...

És o lema sombrio de uma bandeira
que levanto,
pedindo para ti - Menor Abandonado,
Escolas de Artesanato - Mater et Magistra
que possam te salvar, deter a tua queda... (...)


Oração do Pequeno Delinqüente

(...) Meu Deus, acordai o coração dos meus juízes.
Senhor, dai idealismo às autoridades
para que elas criem em cada bairro
pobre de Goiânia
uma Escola conjugada Profissional
e Alfabetização para os meninos pobres,
antes que eles se percam pelo abandono
e por medidas inoperantes e superadas dos que tudo podem. (...)

---------É dessa maneira que a poetisa 'quebra suas pedras e planta flores no caminho', sem que suas retinas fiquem fatigadas.
---------Seria esse o motivo da admiração de Drummond pelas poesias de Cora Coralina?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A paráfrase da morte


Carlos Drummond e Cora Coralina souberam explorar bem a temática da violência e a injustiça social, Drummond em 'Morte do leiteiro' e Cora em 'A Enxada' - esse que é uma paráfrase do conto de Bernardo Elis. Para um, a tragédia se passa no contexto urbano já o outro no contexto rural. Cada um deles contam a estória de personagens que são mortos por um tiro enquanto trabalhavam. Mas a ação que leva a morte deles são diferentes. Após a morte dos personagens os poetas denunciam o descaso da justiça.
Ainda é possível ver e ouvir essas paráfrases e cantos da vida cotidiana.

Morte do leiteiro (Carlos Drummond de Andrade)

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.


A Enxada (Cora Coralina)

Piano carece de uma enxada.
Vai ao padre

- Seu padre, m’presta uma enxada.
Tou carecendo demais.
- Tinha. Tem mais não.
Outro levou. Nem sei quem.

- Seu vendeiro, me vende uma enxada.
Fiado. Na colheita lhe pago.
- Tem não. Sei bem como são.

- Minha do porco,
Me prove um enxada
Caco que seja me serve.
- Tem não.
- Aquela acolá,
pinchada, m’impresta.
- Essa não, é do minino bricá.

- Bão dia, patrão.
Vim busca sua semente, planta.
- Leva, preguiçoso, ladrão.
- Preguiçoso, ladrão, num sou não.

Vou planta seus arrôis
Inté amanhã ta tudo plantado.
No rancho não tem decumé.
Somente garapa fria de rapadura.

O bobo regogou,
rugido de fome.
Barriga vazia.

Piano, calado, puxou manso
beira baixeiro.
Enrodilhou.
Sono canino sonhou.
Espeto de carne pingado na brasa.
Farinha bem cheia de monte.
Panela de arrôis gordurando.

Enxada! Tanto de enxada
entrando no rancho!
Enxada encabada, sem cabo.
Libra e meia, duas libra,
duas caras de marca,
tinindo de novas, lumiando,
relanciando, dadas de graça
pra escolhe.

Piano acordou.
Manhã, nem.
Lua no alto parada no céu.
Passarinho dormindo,
o mato dormindo.
O saco nas costas,
Caminho da roça,
patrão muquirana, acredos!

E baixou, bicho no chão
e furou
e plantou,
agachado, arrastando,
Toco de pau. Toco de braço.

Coragem de pobre
seu medo de pobre
furando,
plantando
arrôis do patrão.

Prazo vencido.
Pua de pau furava.
Toco de dedo sangrava,
plantava.
O dia alto,
alto ia o sol,
tinia de quente
Passarinho cantava.
Deus do céu espiava.
Tudo, quasinho acabado.
Roça furada,
plantada.
Um toco de pau,
um toco de braço,
cinco paus de dedos,
feridos na carne.
Restinho de arrôis
no fundo do saco.

Eis chegam dois ferrabrases.
Jagunços mandados, armados,
Patrão mandou vê...

Piano aprazível:
- Nhorsim. Arrôis já plantado.
Coisinha de nada
sobrando no fundo do saco
indoje plantado.

Os dois ferrabrases:
- Patrão mando exempla ocê.
Risca ligeiro, na frente.

Pou
um tiro estrondou.

Passarinho assustou,
não cantou.
Atrás do toco
Piano acabou.

A roça plantada.
Semente de arrôis
tiquinho de nada
sobrado no fundo do saco.

- Alvíssaras, patrão!
Serviço bem feito.
Ninguém viu nada.
Ninguém falou nada.
Sua roça plantada
com toco de pau.
Piano caído de toco na mão.
Alvíssaras, patrão!
Seu bem feito.

Patrão, sossegadão:
- Assim se pune
preguiçoso, ladrão.

No meio da roça.
Piano já frio.
Sangue coalhado no chão.
Formigas em festas fartando.
Restinho de arrôis
no fundo do pano,
passarinho cantando.

Tempos passados...
Na festa da vila.

Fogos queimando,
Estourando,
Bandinha tocando,
Meninos brincando,
Foliando.

Viram quando
Velha aleijada,
amontada na cacunda do bobo
esmolado.
Gritaram, vaiaram:
- Tomove! Tomove!

Da ponta do boteco
alguém reparou:
- A mó qui é gente do Piano...

Pedras jogadas,
risadas.
Crianças correndo,
com medo.
Os abantesmas...
O bobo espantado
com a mãe na cacunda
montada
virou pra trás.
Roeram sua fome,
miséria, aleijume
no fundo do mato.

Os compadres
proseando de manso:
- e a roça de arrôis,
saiu bem?
- Patrão colheu tudo.
Num ficou satisfeito,
mandou ferrabrais
no rancho do desinfeliz
arrecada algum leitão magro,
galinha de pinto que fosse,
ajutorá pagamento resante.
Os home chegaro,
viro miséria:
o mundo,
a veia alejada.
Metero deboche:
se era casado,
marido e muié.
O bobo infezou,
sabe cumo é, bobo infezado.
Garrou porrete,
escorou,
sem midi fraqueza
Os barzabu isso quiria.
Dero piza.
Só num quebraro de tudo
que a veia se arrastando
pidia pru amo de Deus
deixasse o fio,
sua valença.

Em antes,
derrubaram o rancho,
dero fogo.
O tonto,
co’a mãe na cacunda
ganharo o mato
e foro saí na toca
da Grotinha.
Lá se intocaro
co’s mulambo do corpo.

- E cumo véve, cumpadre?
- Deus dá.
Tendo água de bebê
e fogo pra esuentá
isso pobre veve muito.

Aleijado, cego e bobo
é nação de gente vivedô,
duença num entra neles.

Diz que lá em tempos,
tinha inté pexe bagre na cacimba.
Alimparo tudo.
Num tem mais nem inseto.
Passou lá o Militão,
o veio raizeiro,
inté posô.
Deu conceito.
Espiritou o bobo faze tocaia
na grota da noite,
senta porrete,
bicho miúdo com sede,
cutia, preá, cachorrinho do mato,
inté ratão.
Deu certo. Muqueia, sapeca,
num passa fome não.
Insô a faze arapuca
pega passarinho.
Deu.

- Agora, cumpadre,
tão contando visage.
Lá na roça tem vela acendida
na cabeça dos toco,
diz qui o sugragrante
tá fazendo milagre.
Já virou, das veiz,
cavoucando, gemendo.
Diz qui deu carrera
em gente viva.

- E os quinhoado
levam sustento,
algum trapo de cubri?

_ Isso num informo, cumpadre.
Mais o processo qui o Juiz
abriu deu in nada.
E o delegado feiz diligença,
num teve testemunha,
diz que num foi crime.
Morte de acauso,
os home caçava era tatu.
viro um rebolo no chão,
dero tiro de longe,
acertaro no desinfeliz.

Aí, andaro na lei.
Levantaro o cadave,
mandaro intregá
pra famia faze sepurtamento

- E daí, cumpadre?
- Um crente piedoso sidueu.
Levou carroça de noite,
meteu o falecido num saco,
tocou pra vila,
deixou no portão do sumiterio.

- Bamo chegando pra frente, cumpadre.
Musca ta chamando nós.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Retrato de Cora em cartões


No mês de outubro saiu uma tiragem de 218.000 cartões telefônicos com a imagem de Cora Coralina ilustrada pelo artista plástico Wagner Luz, natural de Goiânia.

Entre Pedras


Não há quem não se depare com os poemas de Cora Coralina e se surpreenda como a poetisa ‘canta suas pedras’. Difícil ainda é não lembrar de outras pedras, ou melhor, do ‘poeta da pedra’, Carlos Drummond de Andrade. Coincidência ou não, esses dois poetas souberam retratar bem o valor simbólico de suas pedras.


No meio do caminho


"No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.


O poema, “No meio do caminho”, publicado em 1928 por Carlos Drummond de Andrade causou escândalo que rendeu a ele censuras e elogios. Por causa desse poema Drummond ficou conhecido como “o poeta da pedra”.
O poeta quebra a mesmice tradicional levando para o plano da experiência cotidiana. Drummond concebe a poesia como uma condição de alma que não necessita de expressão.



Das Pedras


Ajuntei todas as pedras

que vieram sobre mim.

Levantei uma escada muito alta

e no alto subi.

Teci um tapete floreado

e no sonho me perdi.

Uma estrada,

um leito,

uma casa,

um companheiro.

Tudo de pedra.

Entre pedras

cresceu a minha poesia.

Minha vida...

Quebrando pedras

e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam

Levantei a pedra rude

dos meus versos.


O poema metalingüístico da poetisa Cora Coralina intitulado, Das Pedras, retrata o valor simbólico da pedra. As pedras retratam sua própria vida, seus costumes e de seu povo. Cora é espontânea, direta e simples em seus versos. Cora Coralina canta como ninguém suas próprias pedras.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Cora por ela mesma


pintura de cora coralina feita pela artista Ary Salles, outros trabalhos estão a venda no site : http://www.lojadearte.com.br


Mais uma vez cora coralina despeja seus fantasmas em um poema auto biográfico, onde fala sobre tudo o que levou a formação de sua personalidade, da escritora à doceira, da pobreza à riqueza intelectual, do bucolismo e da identificação com a natureza de sua região à sociedade sádica e preconceituosa de sua época, podemos observar que a poetisa jamais se considerou uma grande escritora e sim uma cozinheira que por ela é chamada de a mais nobre de todas as artes.


Cora Coralina, quem é você?


Sou mulher como outra qualquer.

Venho do século passado

E trago comigo todas as idades.


Nasci numa rebaixada de serra

entre serras e morros.

“Longe de todos os lugares”.

Numa cidade de onde levaram

o ouro e deixaram as pedras.


Junto a estas decorreram

a minha infância e adolescência.


Aos meus anseios respondiam

as escarpas agrestes.

E eu fechada dentro

da imensa serrania

que se azulava na distancia

longínqua.


Numa ânsia de vida eu abria

o vôo nas asas impossíveis

do sonho.


Venho do século passado.

Pertenço a uma geração

ponte, entre a libertação

dos escravos e o trabalhador livre.

Entre a monarquia

caída e a republica

que se instalava.


Todo o ranço do passado era

presente.

A brutalidade, a incompreensão, a ignorância, o carrancismo.

Os castigos corporais.

Nas casas. Nas escolas.

Nos quartéis e nas roças.

A criança não tinha vez,

os adultos eram sádicos

aplicavam castigos humilhantes.


Tive uma velha mestra que já

havia ensinado uma geração

antes da minha.

Os métodos de ensino eram

antiquados e aprendi as letras

em livros superados de que

ninguém mais fala.


Nunca os algarismos me

entraram no entendimento.

De certo pela pobreza que marcaria

para sempre a minha vida.

Precisei pouco dos números.


Sendo eu mais doméstica do

que intelectual,

Não escrevo jamais de forma

consciente e raciocinada, e sim

impelida por um impulso incontrolável.

Sendo assim, tenho a

consciência de ser autêntica.


Nasci para escrever, mas, o meio,

o tempo, as criaturas e fatores

outros, contramarcaram minha vida.


Sou mais doceira e cozinheira

do que escritora, sendo a culinária

A mais nobre de todas as Artes:

objetiva, concreta, jamais abstrata

a que está ligada à vida e

à saúde humana.


Nunca recebi estímulos familiares para ser literata.

Sempre houve na família, senão uma

hostilidade, pelo menos uma reserva determinada

a essa minha tendência inata.

Talvez, por tudo isso e muito mais,

sinta dentro de mim, no fundo dos meus

reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo.

Sobrevivi, me recompondo aos

bocados, à dura compreensão dos

rígidos preconceitos do passado.


Preconceitos de classe.

Preconceitos de cor e de família.

Preconceitos econômicos.

Férreos preconceitos sociais.

A escola da vida me suplementou

as deficiências da escola primária

que outras o Destino não me deu.


Foi assim que cheguei a este livro

sem referencias a mencionar.


Nem menção honrosa.

Nenhuma Láurea.


Apenas a autenticidade da minha

poesia arrancada aos pedaços

do fundo da minha sensibilidade,

e este anseio:

procuro superar todos os dias

Minha própria personalidade

renovada,

despedaçando dentro de mim

tudo o que é velho e morto.


Luta, a palavra vibrante

que levanta os fracos

e determina os fortes.


Quem sentirá a Vida

destas páginas..

Gerações que hão de vir

de gerações que vão nascer.

(Cora coralina: Meu Livro de Cordel.) Global Editora e Distribuidora Ltda

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A alma de Aninha

O quarto de Cora Coralina.


Cora Coralina revela um atormentado eu lirico aos seus leitores com sua poesia de forte conteúdo psicológico social. A poetisa em “Minha Infância”, “Vintém de Cobre”, “Todas as Vidas”, “Minha Cidade” e “Antiguidade”, retorna ao seu interior, isto é, as suas experiências da infância e juventude, nos mostra com intensa qualidade lírica os costumes dos adultos de sua época em relação a educação dos filhos, seu desconforto com a própria aparência e as transformações comportamentais e fisicas na sociedade. Algumas dessas passagens podem ser confirmadas nos trechos desses poemas encontrados na obra Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Veja as citações desses trechos:



· “Minha Cidade”


“Eu sou a dureza desses morros,


revestidos,


enflorados,


lascados a machado,


lanhados, lacerados.


Queimados pelo fogo.


Pastados


Calcinados


e renascidos.


Minha vida,


meus sentidos,


minha estética


todas as vibrações


de minha sensibilidade de mulher,


têm, aqui, suas raízes.



Eu sou a menina feia


da ponte da Lapa.


Eu sou Aninha”







· “Antiguidades”



“ Criança, no meu tempo de criança,


não valia mesmo nada.


A gente grande de casa


usava e abusava


de pretensos direitos


de educação”.






· “Vitém de Cobre”

“O tempo foi passando, foi levando:


Minha bisavó, meu avô, minha mãe, minhas irmãs.


A velha casa.


Os velhos preconceitos


De cor, de classe, de família.


O tempo, velho tempo que passou,


Nivelou muros e monturos.


Remarcou dentro de mim


A menina magricela, amarela


Do tempo do cinquinho”.






· “Minha Infância”



“Sem carinho de Mãe.


Sem proteção de Pai...


- melhor fora não ter nascido.



E nunca realizei nada na vida.


Sempre a inferioridade me tolheu.


E foi assim, sem luta, que me acomodei


Na mediocridade de meu destino”.



segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O Chamado das Pedras

A estrada esta deserta

Vou caminhando sozinha

Ninguém me espera no caminho

Ninguém acende a luz

A velha candeia de azeite

De a muito se apagou

Tudo deserto

A longa caminhada

A longa noite escura

Ninguém me estende a mão

E as mãos atiram pedras

Sozinha...

Errada a estrada

No frio, no escuro, no abandono.

Tateio em volta e procuro a luz.

Meus olhos estão fechados

Meus olhos estão cegos

Vêm do passado

Num bramido de dor

Num espasmo de agonia

Ouço um vagido de criança

É meu filho que acaba de nascer

Sozinha...

Na estrada deserta,

sempre a procurar

O perdido tempo

que ficou pra trás.

Do perdido tempo.

Do passado tempo

Escuto a voz das pedras:

Volta... Volta... Volta...

E os morros abriam para mim

Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas

Que ouviam na distância

Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou

Das velhas cumeeiras:

Porque não voltou...

Porque não voltou...

E a água do rio que corria

chamava...chamava...

vestida de cabelos brancos

voltei sozinha à velha casa, deserta.


Abaixo vocês podem assistir á um ótimo documentário feito pelo diretor e fotógrafo Waldir de Pina para o programa Curtas na TV. Com relatos de conhecidos, amigos e da própria escritora sobre as pedras encontradas nos caminhos de sua vida, seus sonhos, desejos e planos.

video

Documentário "o chamado das pedras" sobre a poetisa Cora Coralina, encontrado no Google Videos

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Era uma vez... "Maria Grampinho"


Goiás Velho como toda cidade histórica possui seus personagens folclóricos, aqueles que se destacavam de alguma forma diferente e criativa. Uma delas era Maria da Purificação mais conhecida por Maria Grampinho, uma andarilha descendente de escravos que tinha o costume de agregar a sua roupa tudo o que encontrava pela frente como plásticos, retalhos e botões velhos. Também usava muitos grampos no cabelo e por isso ganhou este apelido. Maria Grampinho morou durante o final da década de 40, no porão da casa de Cora Coralina, dormindo ao lado de uma bica d água, era uma mulher simples e que fazia suas próprias roupas. Cora Coralina a tinha como amiga e até lhe dedicara um poema. Hoje Maria Grampinho virou boneca e ajuda a movimentar a economia da cidade.


Coisas de Goiás: Maria


Maria. Das muitas que rolam pelo mundo.

Maria pobre. Não tem casa nem morada.

Vive como quer.

Tem seus mundos e suas vaidades. Suas trouxas e seus botões.

Seus haveres. Trouxa de pano na cabeça.

Pedaços, sobras, retalhada.

Centenas de botões, desusados, coloridos, madre – pérola, louça,

Vidro, plástico, variados, pregados em tiras pendentes.

Enfeitando. Mostruário.

Tem mais, uns caídos, bambinelas, enfeites, argolas, coisas dela.

Seus figurinos, figurações, arte decorativa,

criação, inventos de Maria.

Maria Grampinho, diz a gente da cidade.

Maria sete saias, diz a gente impiedosa da cidade.

Maria. Companheira certa e compulsada.

Inquilina da casa velha da ponte.


Trecho de poesia retirado do livro “Vintém de Cobre: meias confissões de aninha” da Global Editora e Distribuidora Ltda.



bica dágua e.....

vista do porão onde vivia Maria Grampinho

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Aninha e suas pedras





Não te deixes destruir...

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha

um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

Cora Coralina (Outubro, 1981)



Sobre minha visita a Goiás Velho e as fotos do Blog

Era dezembro e havia trabalhado até o dia 20 como professor substituto no lugar de uma professora que pedira licença, estava a algumas semanas de ir à Brasília com meus pais visitar nossos parentes para passar o natal e o ano novo. Como conhecer Goiás Velho era um dos nossos planos, estava excitado e armado com minha câmera fotográfica a pegar todos os detalhes da estrada. Foi um dia de viagem de minha cidade Artur Nogueira no interior de São Paulo à Brasília, passamos alguns dias e quando chegou o fim de semana decidimos fazer a tão esperada jornada que como já disse era um plano da família. Foi um longo caminho no qual dirigimos por um trecho da Belém – Brasília, completamente esburacada e mal sinalizada, foi sofrível, mas no final valeu a pena. Entrar em Goiás Velho é como voltar no tempo, os casarões, capelas e igrejas revelam os anos em que a cidade viveu o auge da exploração do ouro. Sua história se confunde com a própria história do estado de Goiás, e algumas mostras de sua riqueza, talhadas em ouro nos séculos passados, estão preservadas em locais como o Museu das Bandeiras, construído em 1761; o Colégio Sant'Ana, fundado em 1879 pelas irmãs dominicanas; a igreja Nossa Senhora d'Abadia, erguida pelos escravos em 1790; e a Casa da Fundição, datada de 1752, onde se fundia o ouro extraído das minas.

Como já era muito tarde quando chegamos e estávamos exaustos da viagem, decidimos passar à noite e assim poder conhecer melhor a cidade. A vista da pousada era privilegiada, de frente para a casa velha da ponte e também dava para ver os grandes morros que cercam a cidade os mesmos que a impediram de crescer fazendo com que a capital se deslocasse para Goiânia. Muitas das fotos usadas neste blog são às que tirei durante minha estadia lá com exceção das que mostram o interior e os objetos pessoais da casa de Cora Coralina pois não era permitido tirar fotos dentro da casa, e há outras que é claro foram upadas da internet. As fotos do interior da casa estão à venda no museu, assim como camisetas, livros e cartões postais. Se algum dia você estiver de passagem por Goiás não deixe de visitar Goiás Velho e a casa desta poetisa que assim como a cidade é recheada de memórias e sensações de um tempo passado.

Para maiores informações sobre a cidade de Goiás Velho acesse o link http://www.vilaboadegoias.com.br/index.htm


Vista panorâmica de Goiás Velho

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

"E com a palavra ...Carlos Drummond"



"Minha querida amiga Cora Coralina:

Seu Vintém de Cobre é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que

não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e

comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência

humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com

as fontes da vida! Aninha hoje não se pertence. É patrimônio de nós

todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...).

Não lhe escrevi antes, agradecendo a dádiva, porque andei malacafento

e me submeti a uma cirurgia. Mas agora, já recuperado, estou em

condições de dizer, com alegria justa: Obrigado, minha amiga!

Obrigado, também, pelas lindas, tocantes palavras que escreveu para

mim e que guardarei na memória do coração.

O beijo e o carinho do seu

Drummond."

Andrade, Carlos Drummond de [Rio de Janeiro, 7 out. 1983]. Carta de Drummond. In: Coralina, Cora. Vintém de cobre : meias confissões de Aninha. 4. ed. p. 23.



Cora Coralina, de Goiás.

“Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina.

Cora Coralina, tão gostoso pronunciar esse nome, que começa aberto em rosa e depois desliza pelas entranhas do mar, surdinando musica de sereias antigas e de Dona Janaína moderna

Cora Coralina, pra mim a pessoa mais importante de Goiás. Mais do que o governador, as excelências parlamentares, os homens ricos e influentes do Estado. Entretanto, uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é por exemplo, uma estrada.

Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje. O verso é simples, mas abrange a realidade vária. Escutemos:

“Vive dentro de mim/ uma cabocla velha/ de mau olhado,/ acocorada ao pé do borralho, olhando pra o fogo”. “Vive dentro de mim/ a lavadeira do rio vermelho. Seu cheiro gostoso dágua e sabão”. “Vive dentro de mim/ a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito”. “Vive dentro de mim/ a mulher proletária. / Bem linguaruda, / desabusada, sem preconceitos”. “Vive dentro de mim/ a mulher da vida. / minha irmãzinha... / tão desprezada, / tão murmurada...”.


Todas as vidas. E Cora Coralina as celebra todas com o mesmo sentimento de quem abençoa a vida. Ela se coloca junto aos humildes, defende-os com espontânea opção, exalta-os, venera-os. Sua condição humanitária não é menor do que sua consciência da natureza. Tanto escreve a Ode às Muletas como a Oração do Milho. No primeiro texto foi a experiência pessoal que a levou a meditar na beleza intrínseca desse objeto(“Leves e verticais. Jamais sofisticadas. / Seguras nos seus calços / de borracha escura. Nenhum enfeite ou sortilégio”). No segundo poema, o dom de aproximar e transfigurar as coisas atribui ao milho estas palavras: “Sou o canto festivo dos galos na glória do dia que amanhece. / sou o cocho abastecido donde rumina o gado. / sou a pobreza vegetal agradecida a vós, Senhor.”.


Assim é cora coralina: um ser geral, “coração inumerável”, oferecido a estes seres que são outros tantos motivos de sua poesia: o menor abandonado, o pequeno delinqüente, o presidiário, a mulher-da-vida. Voltando-se para o cenário goiano, tem poemas sobre a enxada, o pouso de boiadas, o trem de gado, os bonecos e sobrados, o prato azul-pombinho, último restante de majestoso aparelho de 92 peças, orgulho extinto da família. Este prato faz jus a referencia especial, tamanha a sua ligação com usos brasileiros tradicionais, como o rito da devolução: “Ás vezes, ia de empréstimo / à casa da boa Tia Norita. / E era certo no centro da mesa/ de aniversário, com sua montanha / de empadas bem tostadas / No dia seguinte, voltava, / conduzido por um portador/ que era sempre o abdenago, preto de valor, / e, melhor cheirinho / de doces e salgados. / tornava a relíquia para o relicário...”.


Relicário é também o sortido deposito de memórias de Cora Coralina. Remontando a infância, não a ornamenta com flores falsas: “éramos quatro as filhas de minha mãe. / entre elas ocupei sempre o pior lugar”. Lembra – se de ter sido “triste, nevorsa e feia. / Amarela de rosto empalamado. / de pernas moles, caindo à toa”. Perdera o pai muito novinha. Seus brinquedos eram coquilhos de palmeira, caquinhos de louça, bonecas de pano. Não era compreendia. Tinha medo de falar. Lembra com amargura essas carências, esquecendo-se de que a tristeza infantil não lhe impediu, antes lhe terá preparado a percepção solidária das dores humanas, que o seu verso consegue exprimir tão vivamente em forma antes artesanal do que acadêmica.


Assim é Cora Coralina, repito: mulher extraordinária, diamante goiano cintilando na sua solidão e que pode ser contemplado em sua pureza no livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. Não estou fazendo comercial da editora, em época de festas. A obra foi publicada pela universidade federal de Goiás. Se há livros comovedores, este é um deles. Cora Coralina, pouco conhecida dos meios literários fora de sua terra, passou recentemente pelo Rio de Janeiro, onde foi homenageada pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil, como uma das 10 mulheres que se destacaram durante o ano. Eu gostaria que a homenagem fosse também dos homens. Já é tempo de nos conhecermos uns aos outros sem estabelecermos critérios discriminativos ou simplesmente classificatórios.

Cora Coralina, um admirável brasileiro. Ela mesma se define: “Mulher sertaneja, livre, turbulenta, cultivadamente rude. Inserida na Gleba. Mulher terra. Nos meus reservatórios secretos um vago sentimento de analfabetismo”. Opõe a morte “aleluias festivas e os sinos alegres da Ressurreição. Doceira fui e gosto de ter sido. Mulher operária”.

Cora Coralina: gosto muito deste nome, que me invoca, me bouleversa, me hipnotiza, como no verso de Bandeira."

Carlos Drummond de Andrade

(Jornal do Brasil, cad. B, 27 – 12 – 80)





segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Versos e Doces: Biografia de Cora Coralina

No dia 20 de agosto de 1889 nasceu Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, na antiga Villa Boa de Goiáz. Filha de Jacinta Luíza do Couto Brandão Peixoto e do desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto. Casou-se com Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas. Teve quatro filhos: Paraguassu, Cantídio Filho, Jacinta e Vicência, 15 netos e 29 bisnestos.


Sua carreira literária teve inicio aos 14 anos, “tragédia na roça” foi seu primeiro conto, publicado em 1910 no Anuário Histórico, Geográfico e Descritivo do estado de Goiás, do prof. Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Em 1903 já escrevia poemas sobre o seu cotidiano, tendo criado em 1908 com duas amigas o jornal de poemas feminino A Rosa. Saiu de Goiás para morar no interior de São Paulo em 25 de novembro de 1911, morando em Jabuticabal, Andradina e depois na capital paulista. Na década de 30 fez colaborações para o jornal O Estado de São Paulo, foi vendendora da Livraria José Olympio na grande capital e proprietária do estabelecimento Casa dos Retalhos em Penápolis interior de São Paulo. Viveu por durante 45 anos fora de Goiás. Voltou em 1956, indo morar na Casa Velha da Ponte. Foi quando iniciou a atividade que desenvolvera por mais de vinte anos, a profissão de doceira. O seu reencontro com a cidade e as histórias de sua formação aprimorou o seu espírito criativo onde ficou conhecida também como Aninha da Ponte da Lapa.


Aos 50 anos foi quando decidiu não ser mais Ana: "Em Goiás existiam muitas Anas por causa da padroeira da cidade". "E eu não queria ser xará. Cora vem de coração, e coralina é a cor vermelha", esta é a sua explicação para a escolha de seu pseudônimo. Cora Coralina faleceu em Goiânia a 10 de abril de 1985 e seu corpo foi levado para a cidade de Goiás, onde jaz no cemitério São Miguel. Logo após sua morte, seus amigos e parentes uniram-se para criar a Casa de Coralina, que mantém um museu com objetos da escritora.


Cora teve uma carreira literária não muito comum tendo seu primeiro livro editado somente em 1965, já com 75 anos de idade: Estórias dos Becos de Goiás e Estórias Mais, pela Editora José Olímpio – São Paulo. Ficou conhecida nacionalmente quase aos 90 anos, quando suas obras chegaram até as mãos de Carlos Drummond de Andrade. Drummond a definiu na época como “a pessoa mais importante de Goiás”. A espontaneidade, o cotidiano e as imagens que retrata do povo de seu estado são traços marcantes em sua escrita. Cora Coralina costumava se considerar uma “mulher atual inserida no seu tempo”. Sua obra possui profundidade e uma beleza singular, sendo considerada por vários autores um registro histórico-social do século XX.

Obras de Cora Coralina

- Estórias da Casa Velha da Ponte
- Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais
- Meninos Verdes (infantil)
- Meu livro de cordel
- O Tesouro da Casa Velha
- Vintém de Cobre
- A Moeda de Ouro que o Pato Engoliu (Infantil)
- Cora Coragem Cora Poesia (biografia escrita por sua filha Vicência Bretas Than)


Aos 70 anos, decidiu aprender datilografia para preparar suas poesias e enviá-las aos editores.



sábado, 8 de setembro de 2007

Seis mulheres e uma vida


Todas as vezes que me apego a algum livro eu me pergunto sobre a inspiração que levou o escritor a tais palavras ou a se auto - representar metaforicamente de formas tão inusitadas e características. Seus motivos intrínsecos estão quase sempre representados em signos ou arquétipos Junguianos. Cora Coralina também possui a suas representações simbólicas, neste poema fica claro a sua identificação com as mulheres de sua sociedade, ela traça um paralelo entre as figuras destas e de sua própria, se tornando uma única pessoa, assim como sua identificação com as pedras, sementes raízes, morros e é claro com o rio vermelho, ela também se sente como a “cabocla velha acocorada ao pé do borralho”, a lavadeira do rio vermelho e a mulher da vida que finge alegria ao realizar o seu fardo. São todas as vidas de uma época dura, onde as mulheres ainda não tinham muitos direitos e a própria retratação da luta destas mulheres guerreiras esta ligada as muitas vidas de Cora Coralina.


Todas as vidas

Vive dentro de mim

uma cabocla velha

de mau-olhado,

acocorada ao pé do borralho,

olhando para o fogo.

Benze quebranto.

Bota feitiço...

Ogum. Orixá.

Macumba, terreiro.

Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mim

a lavadeira do Rio Vermelho.

Seu cheiro gostoso

d'água e sabão.

Rodilha de pano.

Trouxa de roupa,

pedra de anil.

Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim

a mulher cozinheira.

Pimenta e cebola.

Quitute bem feito.

Panela de barro.

Taipa de lenha.

Cozinha antiga

toda pretinha.

Bem cacheada de picumã.

Pedra pontuda.

Cumbuco de coco.

Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim

a mulher do povo.

Bem proletária.

Bem linguaruda,

desabusada, sem preconceitos.

de casca-grossa,

de chinelalinha,

e filharada.

Vive dentro de mim

a mulher roceira

- Enxerto da terra,

meio casmurra.

Trabalhadeira.

Madrugadeira.

Analfabeta.

De pé no chão.

Bem parideira.

Bem criadeira.

Seus doze filhos,

Seus vinte netos.

Vive dentro de mim

a mulher da vida.

Minha irmãzinha...

tão desprezada,

tão murmurada...

Fingindo alegre seu triste fardo.

Todas as vidas dentro de mim:

Na minha vida -

a vida mera das obscuras.


Cora Coralina



quarta-feira, 8 de agosto de 2007

APRESENTAÇÃO

Acho que antes de começarmos a postar informações sobre a vida e obra de Cora Coralina devo iniciar com o porquê de estar criando um blog que se dedicará em agregar o máximo de informações sobre a poetisa e minha profunda relação com suas poesias. Durante muito tempo desconhecia sua obra mesmo sendo um ávido leitor e amante da literatura nunca vi em nenhum livro didático (ou pelo menos que eu me lembre) informação, poesia ou mesmo um conto para ilustrar qualquer exercício de interpretação. Conheci sua obra através de meu pai que havia adquirido recentemente dois livros de poesia “Meu Livro de Cordel” e “Historias da casa velha da ponte”. A principio eu não liguei, perdoei meu chauvinismo, mais nunca fui um grande fã de poetisas, porém após assistir ao um documentário transmitido pela TV Cultura, o qual pretendo dar mais detalhes futuramente, fiquei muito impressionando ao ver uma senhora semialfabetizada respondendo a perguntas de filósofos, poetas, jornalistas e outros intelectuais com tamanha sagacidade e algumas vezes até ironia. Apesar da idade avançada Cora Coralina se punha a frente de todos falando sobre o papel da mulher na sociedade moderna, sua visão política, poesia e ... doces. A partir daí inicie uma serie de buscas para conhecer mais sobre a escritora, procurando em sites, bibliotecas publicas e universitárias informações. Mas somente lendo suas publicações pude compreender do que realmente se tratava sua obra. Sua poesia é quase prosa com uma incrível vocação para os versos livres, cheia de lembranças e sensações narrando muitas vezes as historias dos becos de Goiás ou contando casos da sua infância. A simplicidade e humildade com que muitas vezes se coloca em seus poemas diante da vida é qualidade marcante do seu trabalho, identificando-se com adjetivos como “a cozinheira”, “a lavadeira”, “a mulher do povo”, “a cabocla velha”. Cora Coralina também mostra com sua poesia ser uma pessoa muito ligada aos valores humanos, alguém que escreve para os jovens, que quer transmitir para o mundo suas idéias. Devo agradecer ao meu pai e admitir que agora sou um grande admirador de sua obra. E pretendo com ajuda de meu amigo que me auxilia na manutenção desse blog, transmitir as confissões de aninha para quem mais puder ouvir.



Rio Vermelho - Passa ao lado da casa de Cora Coralina.

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